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Abstenção e rejeição desafiam Flávio e Lula na disputa acirrada por votos no 2º turno

Márcia Cavallari: “A rejeição limita o potencial de crescimento de ambos os candidatos, mas também estimula o chamado ‘voto por exclusão’”

Valor Econômico6 min read
Abstenção e rejeição desafiam Flávio e Lula na disputa acirrada por votos no 2º turno

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Claudio Belli/Valor - 4/10/2016

A mobilização dos eleitores para comparecerem às urnas e a capacidade de explorar a rejeição ao adversário estão entre os fatores que podem impactar o segundo turno da eleição presidencial entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Separados por uma pequena diferença de votos na primeira etapa, os dois candidatos têm agora uma disputa marcada pela desmobilização das campanhas estaduais, após a eleição de governadores em ao menos 20 Estados, e pelo desafio de conquistar eleitores em um ambiente de elevada resistência a ambos.

Depois de um primeiro turno em que a abstenção atingiu 21,08% do eleitorado, as duas candidaturas iniciaram a segunda fase da campanha empenhadas em estimular o comparecimento. Mais de 33 milhões de aptos a votar se ausentaram no dia 4.

Outra estratégia comum é a aposta em ataques e tentativas de desconstruir a imagem do oponente. Flávio e Lula chegaram à véspera da eleição com índices iguais de rejeição (45%) no Datafolha, mas a primeira pesquisa do instituto no segundo turno, divulgada na quinta-feira (8), mostrou o petista com 46% e o rival com 43% - oscilações na margem de erro, de dois pontos.

Segundo a especialista em pesquisas eleitorais Márcia Cavallari, os fatores mais relevantes entre o primeiro e o segundo turno, ao lado de abstenção e rejeição, costumam ser: transferência dos votos dos candidatos que não passaram para o segundo turno, desempenho nos debates e formação de alianças e apoios políticos. “A particularidade desta eleição é justamente a combinação de uma disputa extremamente apertada com níveis elevados de polarização”, diz a líder de pesquisas da Ipsos-Ipec.

A abstenção ganha importância, segundo ela, porque no segundo turno o universo de votos passíveis de conversão é menor. “Quando há uma distância menor entre os candidatos, pequenas mudanças na participação eleitoral podem fazer diferença.”

O coordenador do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp-SP), Beto Vasques, acrescenta que o perfil dos eleitores que se abstiveram e decidirem comparecer será fundamental, mais do que o número absoluto. “É possível que um eleitor do presidente [Lula] que não foi no primeiro turno ou um eleitor humilde, que muitas vezes errou ao votar porque eram seis cargos, num segundo turno possa ter maior comparecimento, tanto pela preocupação diante dos receios e alertas, quanto pela maior facilidade de acertar o voto, em uma eleição mais simples”, afirma.

Historicamente, a abstenção aumenta no segundo turno, mas a eleição de 2022 foi uma exceção, atribuída à mobilização dos apoiadores em torno de Lula e do então presidente Jair Bolsonaro.

Para Vasques, o desfecho das disputas pelos governos estaduais já no primeiro turno tende a desmobilizar as máquinas eleitorais - algo que PL e PT tentam evitar, acionando lideranças em busca de engajamento -, mas o nível de alienação eleitoral pode se reduzir caso os eleitores “se sintam impelidos por um clima de polarização” no segundo turno. “O comparecimento deve ser muito mais influenciado pelo debate público do que pelas estruturas de campanha. A habilidade dos candidatos de pautarem o debate pode ser o gatilho para tirar o eleitor de casa”, afirma.

Ambos vão tentar reduzir a própria rejeição e subir a do adversário”

Os dois analistas reconhecem que as vitórias de aliados de Flávio em 11 Estados, ante cinco apoiadores de Lula, sugerem um cenário mais favorável ao senador em termos de capilaridade territorial e influência de lideranças, incrementado pela eleição de uma bancada robusta de deputados e senadores de direita. Ao mesmo tempo, os profissionais dizem que não necessariamente isso se traduz em vantagem numérica, pois o eleitor pode, por exemplo, desconsiderar as orientações dos governadores.

“Por um lado, se há mais governadores pró-Flávio, é algo positivo para ele. Porém, com a eleição desmobilizada, parte dessa vantagem se perde. E, com toda a vantagem desses candidatos a governador no primeiro turno, Flávio teve diferença de apenas 1,87 ponto percentual na frente de Lula”, pondera Vasques. No primeiro levantamento do Datafolha no segundo turno, Flávio aparece com 49% das intenções, e Lula tem 45%. Em votos válidos, que excluem brancos e nulos, são 52% para o candidato do PL e 48% para o do PT. A situação é de empate técnico, no limite da margem de erro.

Márcia Cavallari pontua que deputados e senadores recém-eleitos possuem estruturas de campanha ainda ativas, com canais de comunicação funcionando e equipes mobilizadas. “Como a bancada do PL e de partidos próximos teve desempenho expressivo e há sinais de concentração de apoios partidários em torno de Flávio Bolsonaro, é razoável afirmar que ele chega ao segundo turno com uma vantagem organizacional nesse aspecto.”

Uma das ferramentas das campanhas para levar o eleitor às urnas é ativar o temor com a vitória do oponente e tratá-lo como um “risco maior”, o que pode ter um impacto ambíguo, na avaliação da pesquisadora do Ipsos-Ipec.

“A rejeição limita o potencial de crescimento de ambos os candidatos, mas também estimula o chamado ‘voto por exclusão’, quando o eleitor vota menos por identificação com seu candidato e mais para impedir a vitória do adversário. Isso é um fenômeno comum em cenários altamente polarizados, mas tende a ser ainda mais intenso quando os dois finalistas carregam rejeições elevadas e identidades políticas muito consolidadas”, afirma ela.

O nível de acirramento e as características da corrida desencorajam os especialistas a se aventurarem em especulações sobre o resultado. Nunca um candidato que chegou na frente no primeiro turno presidencial - caso de Flávio - perdeu no segundo, mas Cavallari recorre à máxima de que a campanha de segundo turno é sempre uma nova eleição. “Esta especificamente é a que teve a menor diferença entre os dois candidatos que passaram para o segundo turno”, lembra.

Na visão de Vasques, a distância curta entre os dois candidatos “não desabilita acreditar que é possível a candidatura do presidente Lula fazer uma virada”, mas isso dependeria do êxito do PT em reorganizar a campanha e ajustar a estratégia de comunicação nas três semanas até o dia 25 de outubro. “Eleição não é uma ciência certa. Então, não é porque nunca aconteceu algo que não possa acontecer”, diz. No Datafolha, 94% dos eleitores declaram estar totalmente decididos sobre o voto e 6% afirmam que ainda podem mudar de ideia.

Segundo o analista, uma das hipóteses prováveis é que, se os índices de rejeição a Lula e Flávio continuarem altos, a diferença de votação entre eles pode ficar entre 1,5 ponto percentual e 2 pontos. Isso porque o contingente elevado de pessoas que se recusam a escolher um ou outro candidato cria um “teto” de votos para os dois. “Obviamente que ambos vão tentar reduzir a própria rejeição e subir a do adversário.”

Debates, notícias negativas, erros de campanha e fatos novos também podem provocar reflexos, alterando a intensidade da rejeição ou da intenção de voto. “Em uma disputa tão apertada, mudanças marginais podem ser suficientes para alterar o resultado final”, explica Cavallari.

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