Trump transmite fraqueza e isola EUA do mundo, diz ex-chefe do Pentágono
Leon Panetta: ‘Vivemos em um mundo muito mais perigoso do que aquele em que eu fui secretário ou diretor da CIA. Há vários pontos de tensão no mundo’

Excerpt
Jacek Boczarski/Anadolu via Getty Images
As ações - e também as omissões - do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, diante dos desafios de política externa estão transmitindo ao mundo uma “mensagem de fraqueza” e isolando os EUA, afirma Leon Panetta, que entre 2009 e 2013, comandou a CIA e o Pentágono.
“O mundo sempre acreditou que os EUA tinham de atuar como líderes, fortalecer alianças sólidas, manter Forças Armadas poderosas, uma diplomacia consistente e que era preciso enfrentar os tiranos do mundo”, diz o ex-secretário de Defesa. “Este governo se afastou de vários desses princípios. E, como resultado, os EUA estão muito sozinhos no mundo.”
Panetta integrou o governo de Barack Obama durante um período desafiador para política externa americana. À frente da agência de inteligência, acompanhou a operação que localizou e matou Osama bin Laden, em 2011. Pouco depois, assumiu o comando do Departamento de Defesa, onde lidou com a guerra no Afeganistão, e a retirada das tropas do Iraque.
Mais de uma década depois, porém, Panetta avalia em entrevista ao Valor que o mundo se tornou ainda mais perigoso, em meio a múltiplas tensões envolvendo a Rússia, China, Coreia do Norte e o Irã. Sobre o Irã, ele afirma que o governo cometeu uma série de erros desde o inicio do conflito, como o de acreditar que o regime entraria em colapso poucos dias depois dos ataques.
“Estamos novamente presos em uma guerra sem fim no Oriente Médio”, avalia.
Afastados de cargos públicos desde que saiu do Pentágono, Panetta também atuou no Congresso americano, que daqui poucas semanas terá eleições. Na entrevista, ele avalia os rumos que país pode tomar a partir do pleito e o impacto da guerra nas urnas.
A seguir, os principais trechos da conversa:
Valor: Os desafios de defesa que os EUA enfrentam hoje são maiores do que eram quando o senhor estava no governo?
Leon Panetta: Sim, não acho que haja qualquer dúvida de que vivemos em um mundo muito mais perigoso do que aquele em que eu fui secretário ou diretor da CIA. Há vários pontos de tensão no mundo. Há as ameaças da Rússia e de Putin. Vemos isso na Ucrânia. Há as ameaças da China. Apesar do encontro entre Xi e Trump, a China continua sendo uma adversária no mundo. E estamos preocupados com o que eles querem fazer. A Coreia do Norte e suas armas nucleares também são uma ameaça. O Irã, obviamente, continua sendo uma fonte de instabilidade no Oriente Médio. E temos o terrorismo. Além disso, temos as ameaças relacionadas à tecnologia e estamos tentando entender exatamente o que vai acontecer com a inteligência artificial. Então, quando você olha ao redor, há uma série de questões com as quais precisamos nos preocupar. E, se estamos preocupados em proteger nossa segurança nacional, muito francamente, este é um momento em que precisamos de aliados. E essa é justamente a única coisa da qual o presidente Trump parece estar se afastando.
Valor: Como o senhor avalia o governo Trump até agora? Você acha que ele está resolvendo essas preocupações em relação a segurança dos EUA?
Panetta: Não, estou preocupado que as ações que ele toma, ou deixa de tomar, estejam transmitindo uma mensagem de fraqueza dos EUA para o mundo. Quero dizer, o fato de estarmos presos nessa guerra com o Irã, de que nenhum dos dois lados esteja encontrando uma maneira de colocá-la fim, e o impacto que isso está tendo sobre a nossa economia e sobre a nossa posição no mundo. Some-se a isso um presidente que é realmente imprevisível na maneira como se comporta com os outros. Você nunca sabe ao certo o que ele vai fazer ou o que vai dizer. E há ainda a questão da nossa segurança nacional: permitir que nossas Forças Armadas cheguem a um nível perigosamente baixo em termos de seu estoque de armas, a ponto de o presidente sequer conseguir responder a ações militares no Irã. Acho que tudo isso transmite uma mensagem de fraqueza para o mundo.
Valor: Que precedentes essa mensagem de fraqueza abre?
Panetta: Isso gera preocupações em relação à nossa segurança. Porque, veja, desde a 2ª Guerra Mundial, os EUA - fosse um presidente republicano ou democrata - embora pudessem ter diferenças políticas, acreditavam nos mesmos princípios quando se tratava de segurança nacional. Eles acreditavam que os EUA tinham que ser um líder mundial, que tinham que fortalecer e desenvolver alianças sólidas no mundo. Acreditavam que precisávamos manter Forças Armadas fortes e uma diplomacia forte. E também acreditavam que era preciso enfrentar os tiranos do mundo. Esta administração se afastou de vários desses princípios. Como resultado, os EUA estão muito sozinhos no mundo em termos de nossa capacidade de proteger nossa segurança nacional.
Americanos querem voltar a ser uma democracia vibrante, e não uma autocracia”
Valor: Sobre o Irã, o que os EUA deveriam estar fazendo de diferente para pôr fim à guerra?
Panetta: Acho que o governo tomou uma série de decisões equivocadas em relação a essa guerra. Eu acho que foi um erro muito grave acreditar que os EUA e Israel poderiam atacar o Irã e que, segundo o que Israel dizia, uma vez que eliminássemos sua liderança, o regime entraria em colapso em poucos dias. Nossa inteligência dizia que isso não aconteceria. Não havia nenhuma chance de que o regime entrasse em colapso e, ainda assim, seguimos adiante com o ataque.
Valor: O bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã tem sido um dos maiores impasses dessa guerra. O senhor acha que Trump foi negligente em relação ao estreito?
Panetta: Nós sempre soubemos - certamente quando eu era secretário de Defesa - que, se entrássemos em um conflito com o Irã, uma das primeiras coisas que eles fariam seria fechar Ormuz. O presidente disse que ficou surpreso com o fechamento do estreito pelo Irã. Não consigo imaginar que não houvesse pessoas que tivessem dito a ele o que iria acontecer. E permitir que o Irã fechasse o Estreito de Ormuz deu ao país uma enorme vantagem sobre os EUA, ao interromper o fornecimento de petróleo para o mundo. O impacto disso sobre a inflação e os custos aqui no país é enorme. Por isso, sinceramente, não consigo entender por que o presidente não tomou medidas para assumir o controle do Estreito de Ormuz.
Valor: Mas o senhor acha que os EUA têm capacidade de assumir o controle do estreito?
Panetta: Eu espero que os EUA tenham essa capacidade. Temos quase 50 mil soldados no Oriente Médio. Uma boa parte da nossa Marinha está localizada na região. E, francamente, acho que os EUA deveriam fazer isso. Em vez de ficarem presos, como os EUA estão agora, tanto os EUA quanto o Irã estão, de muitas maneiras, encurralados. Suas economias estão sendo afetadas. E a realidade é que nenhum dos dois sabe como sair dessa guerra. Eles estão esperando que o outro lado ceda, para que possam recuar, e isso não está acontecendo. E, assim, estamos novamente presos em uma guerra sem fim no Oriente Médio.
Valor: O senhor acha que essa guerra terá impacto nas eleições de meio de mandato?
Panetta:Não acho que haja qualquer dúvida. Quase 80% dos americanos são contrários à guerra com o Irã. Eles estão sofrendo como consequência dessa guerra. A inflação está terrível. O custo de vida está terrível. O preço dos combustíveis está no nível mais alto em muito tempo. Então, não há dúvida de que os americanos se opõem fortemente a essa guerra e querem que ela chegue ao fim.
Valor: Falando sobre a América Latina, Trump chamou os cartéis de drogas de “o ISIS do Hemisfério Ocidental” em seu discurso na Assembleia Geral da ONU. O governo dele também adotou uma abordagem mais militar no combate a esses grupos. O senhor acha que tratar organizações criminosas como terroristas é a estratégia correta?
Panetta:Não. Acho que a ideia de simplesmente atacar e explodir essas embarcações sem saber de fato quem está a bordo, sem saber se elas estão realmente relacionadas ao tráfico de drogas, vai contra todos os princípios de combate que os EUA deveriam defender. E acho que, ao fazer isso, estamos simplesmente transmitindo uma mensagem à América Latina e à América Central de que os EUA vão tomar qualquer medida que considerem possível, que não vão respeitar as regras da guerra ou as normas do direito. E o resultado disso, na minha opinião, é que os EUA estão enfraquecendo sua posição na América Latina e na América Central. Essa é uma região onde deveríamos estar construindo alianças e trabalhando com outros países para melhorar sua segurança e sua qualidade de vida.
Valor: O senhor acha que o Brasil deveria estar preocupado?
Panetta: Eu ficaria preocupado se fosse o Brasil, assim como qualquer outro país. Eu não saberia exatamente o que os EUA pretendem fazer, porque os EUA não estão trabalhando em conjunto com os países da América Latina e da América Central. Eu sempre tratei esses países como parte da nossa família. Estamos juntos no Hemisfério Ocidental. E John Kennedy considerava muito importante, como presidente, construir uma relação forte com a América Latina e a América Central - em termos de nossa economia, de segurança e de esforços para melhorar a vida das pessoas. Essa é a maneira de lidar com a região. Quando agimos por conta própria, basicamente transmitimos a mensagem de que os EUA vão fazer o que quiserem, independentemente de os países apoiarem ou não essas ações.
Valor: Olhando para o restante do mandato de Trump, o que mais preocupa o senhor?
Panetta:Eu acredito na democracia. E um dos princípios mais importantes da nossa democracia é que o povo americano tem o direito de votar a cada dois anos. E tem o poder de votar para substituir pessoas que ocupam cargos públicos quando elas estão fazendo um trabalho ruim. Daqui a algumas semanas, teremos uma eleição de meio de mandato. Isso nos dirá muito sobre a democracia americana. Se o povo americano enviar uma mensagem clara de que não apoia o que este presidente está fazendo e mudar o partido que controla o Congresso. Acho que isso enviará uma mensagem muito forte ao mundo de que os americanos estão insatisfeitos com o governo Trump e querem voltar a ser uma democracia forte e vibrante, e não uma autocracia.
Valor: Quais são suas expectativas para o resultado desta eleição?
Panetta: Acho que, neste momento, a maior parte da imprensa, dos formadores de opinião e dos líderes dos dois partidos acredita que há uma boa possibilidade de os democratas assumirem o controle da Câmara dos Representantes. E que também existe uma boa possibilidade de que eles possam assumir o controle do Senado. Agora, eleições são eleições. Mas acho que, em relação às questões mais amplas neste momento, os americanos acreditam que é importante haver uma mudança.
Valor: Uma vitória do partido Democrata poderia forçar Trump a mudar sua estratégia de defesa?
Panetta: Uma coisa sobre o nosso país é que, no fim das contas, o Congresso tem o poder sobre o orçamento. E, se o Congresso não apoiar a abordagem de segurança nacional deste governo, não vai financiá-la. Faz sentido, dentro do nosso sistema, independentemente de quem seja o presidente, que o presidente consiga trabalhar com a liderança do Congresso. Porque o fato é que os EUA foram construídos com base na ideia de que o poder não deveria estar concentrado em um único ramo do governo. Nem no presidente, nem no Congresso, nem nos tribunais. Temos um sistema de freios e contrapesos para garantir que seja assim. E, para trabalhar dentro desse tipo de sistema, é muito melhor que o presidente trabalhe com o Congresso.
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