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Preço ainda é barreira para consumo sustentável no Brasil

Os brasileiros mantêm-se dispostos a reduzir seu impacto ambiental nas decisões sobre consumo, mas encontram barreiras para agir, como preço (51%), falta de informação (43%) e de disponibilidade (43%) dos produtos mais sustentáveis.

Valor Econômico5 min read
Preço ainda é barreira para consumo sustentável no Brasil

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Os três principais limitadores para um consumo mais consciente no Brasil são superiores aos registrados na média global: 49%, 40% e 37%, respectivamente. Os resultados fazem parte da pesquisa Vida Saudável e Sustentável - VSS 2026, realizada entre julho e agosto pela empresa de pesquisa GlobeScan em 33 mercados, com mais de 32 mil respondentes. No Brasil, o estudo é realizado desde 2019 a pedido do Instituto Akatu, que promove o consumo consciente.

A série histórica da pesquisa confirma o descompasso entre desejo e ação, e sugere que o consumidor brasileiro atribui às empresas e ao governo uma parte da responsabilidade pela mudança rumo a hábitos de consumo mais sustentáveis. “A primeira barreira estrutural é a capacidade de compra. O brasileiro médio é uma pessoa que luta para fechar o orçamento do mês, então o seu desejo de consumir de forma sustentável esbarra nas limitações financeiras”, diz Álvaro Almeida, diretor da GlobeScan para a América Latina. De alimentos orgânicos a carros elétricos, o consumidor brasileiro associa sustentabilidade a produtos com posicionamento premium de mercado - portanto mais caros. Caberia às empresas o papel de mudar essa abordagem, na visão de Almeida. “Uma atitude mais proativa das empresas em trazer a sustentabilidade para a escala e para a competição com outros produtos em igualdade de preços é o que vai permitir que o consumidor possa colocar seu desejo em ação”, diz.

Para Lucio Vicente, diretor geral do Instituto Akatu, as lideranças empresariais precisam incorporar a ideia de que o impacto socioambiental é um princípio de eficiência. Isso significa investir em sistemas produtivos mais resilientes que consumam menos energia, água e matérias-primas virgens, além de ampliar o uso de materiais reciclados na composição dos produtos, e não apenas nas embalagens.

O desafio para as empresas é incorporar essa lógica à gestão dos negócios e fazer com que a diferenciação dos produtos venha acompanhada de benefícios concretos para o consumidor e para o meio ambiente. Para que esse potencial se concretize, porém, é preciso investir em economia circular de forma articulada, envolvendo empresas e setores inteiros. “A circularidade, quando investida em rede, vai gerar oportunidade de escala e menor custo. Hoje, uma empresa que busca aplicar a circularidade sozinha acaba pagando caro por todo um sistema que não acontece”, diz Vicente.

A oportunidade para novos modelos de negócios sustentáveis encontra amparo no nível de confiança que os consumidores depositam nelas. De acordo com a VSS 2026, 55% dos entrevistados têm níveis alto e médio de confiança nas empresas brasileiras e 49% nas empresas globais. Já os governos estão na penúltima posição de confiabilidade (32%), perdendo apenas para bilionários (27%). Mesmo com a confiança arranhada, os governos têm um papel central na regulação do consumo consciente, na promoção de políticas de rastreabilidade que possam assegurar ao consumidor a origem sustentável dos insumos e produtos e em arranjos de governança que possam dar escala a essas práticas, rompendo as barreiras de acesso e de falta de conhecimento identificadas pela pesquisa. “Governos e empresas precisam ajudar o consumidor a ter informação acessível”, afirma.

Circularidade investida em rede vai gerar oportunidade de escala e menor custo”

O desafio da comunicação da sustentabilidade passa pela comprovação das práticas e pelo reconhecimento de que há pontos a avançar, na avaliação de Daniela Mignani, diretora executiva de gestão do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds). Ao comunicar, por exemplo, que está reduzindo sua pegada de carbono, a empresa precisa esclarecer quanto reduziu, em qual período, em quais operações - uma vez que o consumidor não domina essa contabilidade, cabe à companhia traduzir a informação com precisão. Também é importante comunicar o que ainda não foi resolvido: uma meta futura deve aparecer como compromisso, acompanhada de etapas e resultados intermediários. “Existe ainda uma dimensão de coerência: compromissos ambientais precisam orientar investimentos, compras, desenvolvimento de produtos e posicionamentos públicos. A comunicação perde força quando essas decisões apontam em direções diferentes”, diz Mignani.

Outro cuidado, segundo a executiva, é não reduzir o consumo consciente somente à esfera da compra de produtos identificados como sustentáveis. Reparar, reutilizar, compartilhar e evitar desperdícios também fazem parte dessa agenda. “O reconhecimento dessas práticas é importante para que a sustentabilidade dialogue com a realidade de diferentes rendas”, afirma. Nesse campo, existem oportunidades para as empresas oferecerem serviços que valorizem esses hábitos, com qualidade, segurança e preços acessíveis, na visão do Cebds.

Outro ponto da pesquisa VSS 2026 diz respeito às preocupações dos consumidores com a mudança climática: 50% dos brasileiros dizem estar “muito afetados” pelo aquecimento global, percepção superior à média global, de 40%. O aumento do custo de vida - que pode estar relacionado também a fatores climáticos - aparece como uma preocupação ainda mais forte: 66% dizem estar muito afetados, contra 54% no mundo. Para a psicóloga e psicoterapeuta Camila Tuchlinski, especialista em psicossomática, a tomada de ações concretas em relação às questões ambientais pode esbarrar também na chamada “ecoansiedade”. Esse sentimento, que ainda não foi classificado como um transtorno mental pela Organização Mundial da Saúde (OMS), diz respeito ao medo crônico e persistente de cataclismos ambientais, afetando a rotina, o sono, a alimentação, o relacionamento interpessoal e o bem-estar. Algumas situações de catástrofes ambientais podem levar a casos de síndrome do pânico ou transtorno de estresse pós-traumático.

Segundo Tuchlinski, chama a atenção o dado trazido pela pesquisa de que o interesse em adotar comportamentos sustentáveis recuou desde 2020 no mundo todo, mesmo após a vivência da crise de saúde e econômica causada pela covid-19. “Isso é curioso pois, no período da pandemia, houve um impacto emocional considerável em relação ao futuro. A esperança de que um ‘novo normal’ mais consciente reinaria entre as pessoas não se concretizou”, diz.

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