O dique contra avalanche da direita fica por um triz
O senador Flávio Bolsonaro (PL) passou ao 2º turno da eleição presidencial na liderança de uma disputa em que a direita avançou em todo o país, nos governos estaduais e no Congresso. Impôs, sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a mesma diferença de votos (2,3 milhões) com a qual o pai foi derrotado em 2022.
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É como se a barreira erguida por Lula contra o avanço da direita iniciado em 2018 não tivesse se alicerçado no conjunto do país e agora esteja prestes a romper.
Não se registra, nas histórias de 2º turno das disputas presidenciais, uma reversão de vantagem, ainda que a diferença tenha sido estreita como a deste domingo. As chances de Flávio consolidar sua vantagem estão na maior afinidade com o eleitorado da terceira via. Somados, Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) tiveram 7,5% dos votos, patamar equivalente ao de 2022.
Se, naquele ano, a presença de Simone Tebet e Ciro Gomes na corrida presidencial permitiu a captação de uma fatia de votos por Lula no segundo turno, desta vez, é Flávio Bolsonaro quem se apresenta mais apto a herdar os mais de oito milhões de voto dos quatro candidatos. Some-se a isso o desprezo de Lula pelos candidatos cujos votos agora precisa. Na última entrevista antes do 1º turno, ao podcast Flow, ante uma bola levantada pelo entrevistador, Lula limitou-se a chamar de “fazendeiro” Caiado, de quem é adversário desde 1989.
Esta atitude dificultará a formação de uma frente ampla, a exemplo daquela que, em 2022, foi formada para a defesa da democracia. Ainda tem a aprovação da proposta de emenda constitucional que põe fim à jornada 6x1. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União), prometeu pautar nesta terça, mas seus aliados foram derrotados neste domingo na disputa pelo governo do Estado e pelas duas vagas ao Senado. Na votação da CCJ, em setembro, Flávio Bolsonaro se ausentou. Contrário à proposta, pode vir a fazer bis.
Uma terceira aposta foi exibida por Lula na entrevista da noite de ontem ao falar sobre o resultado do primeiro turno. O que chamou de “exposição da biografia” do seu adversário, sua campanha entende por destruição de sua reputação. Neste segundo turno, os dois finalistas não terão como fugir dos debates. A dúvida é se será suficiente se milícias, rachadinhas, golpismo e falcatruas do Master estiveram até aqui na vitrine sem fazer cócegas em Flávio Bolsonaro.
Bolsonarismo no centro-sul, pela força da gravidade, deixa Lula por uma pinguela
Já a formação de uma frente ampla por Lula tem, por enquanto, mais motivos (soberania, democracia e blindagem contra o crime organizado e milícias) do que forças capazes de fazê-los superar as divergência acumuladas ao longo desta gestão na questão fiscal e na relação com o Supremo Tribunal Federal. Como sua campanha de 2022 foi mais ampla que seu governo, que concentrou as pastas-chave nas mãos do PT, terá dificuldade em demovê-los. Ampliar a campanha não é apenas um imperativo de campanha mas de governo. Se vier a se reeleger, Lula governará com um PL de 28 senadores, mais que o triplo da segunda bancada, do PT, com 9.
O maior obstáculo à reversão, porém, é mesmo, sua excelência, o eleitor. A começar pelo Estado natal do bolsonarismo. Depois de liderar as pesquisas em todo o 1º turno, o ex-prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), passou ao segundo atrás do deputado estadual Douglas Ruas (PL). Foi a prisão do ex-presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar (PL), que fez de Ruas candidato. Bacellar foi preso sob suspeita de obstruir investigações do Comando Vermelho. A eleição de Ruas, portanto, seria o mais próximo que o Palácio da Guanabara teria chegado do crime organizado. Eis um drama que não parece comover o eleitor.
O Rio não surpreendeu apenas na votação de Ruas, mas também por ter derrotado a única dos ex-governadores vivos do Rio a não ter sido presa. Benedita da Silva (PT) ficou de fora do Senado. O Rio terá uma bancada PL puro sangue: Carlos Portinho e Carlos Jordy se unirão a Romário, com mandato até 2031. O ex-vereador Rick Azevedo (Psol), primeiro parlamentar do país a levantar a bandeira do fim da jornada 6x1 e eleito com a segunda votação do Rio, atrás de Dr. Luizinho (PP), emerge como liderança da esquerda no Estado.
Além de se consolidar no seu berço natal, o bolsonarismo também elegeu as duas senadoras do Distrito Federal, Michelle Bolsonaro (PL) e Bia Kicis (PL). A governadora e candidata à reeleição, Celina Leão (PP), que teve apoio da ex-primeira-dama, passou para o segundo com larga margem (15 pontos percentuais) sobre o candidato do PT, Leandro Grass.
Resultado refletiu um governo menos amplo do que a frente armada para a eleição de 2022
Não foi apenas no Rio que a votação pretendida por Lula no Sudeste se frustrou. Flávio Bolsonaro também ganhou em São Paulo por margem maior do que o PT projetava, e em Minas, os dois maiores colégios eleitorais do país. A promessa, reiterada na noite de ontem, por Flávio, de por fim à reeleição, é um aceno em busca do engajamento do governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que ambiciona a Presidência em 2030.
Já a vitória de Flávio em Minas pode ser o prenúncio da eleição nacional uma vez que o Estado, desde a redemocratização, repete o resultado do país. A eleição do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) no 1º turno, ao governo, derrotando o ex-prefeito de BH, Patrus Ananias (PT) já é, em muitos aspectos, também a reprodução da distopia nacional. Deputado federal de 74 anos, Patrus foi escolhido por Lula para encabeçar seu palanque em Minas numa tradução da resistência do PT a se renovar, dificuldade que tem no presidente o maior símbolo.
A despeito de não ter sido o palanque de Flávio Bolsonaro no Estado, Azevedo o mimetiza em larga escala. É um candidato antissistema, a despeito de vir de uma família de políticos. Já ensinou a burlar pedágios, prometeu isentar entregador de aplicativo de IPVA e a se insurgir contra as bets, preferiu fazer selfie com a influenciadora Virginia Fonseca em depoimento dela no Senado. Seria apenas um mandato cacareco, se não tivesse como um de seus lastros o deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos), indiciado pela Polícia Federal na operação que apura fraudes no INSS.
O Nordeste permaneceu como o tradicional bastião lulista. Ganhou nos nove Estados da região em que o PT elegeu reelegeu três governadores - Elmano Freitas (CE), Jerônimo Rodrigues (BA) e Rafael Fonteles (PI) - e ainda disputa o 2º turno no Rio Grande do Norte. No mapa do Brasil, a mancha vermelha se espalhou no Nordeste para o Norte do país, mas a consolidação do bolsonarismo no centro-sul, pela força da gravidade, deixou Lula pendurado por uma pinguela.
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