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Derrota inédita pode atingir Lyra ou Campos em Pernambuco

Lyra: vídeo de 2025 freou crescimento da governadora nas pesquisas

Valor Econômico7 min read
Derrota inédita pode atingir Lyra ou Campos em Pernambuco

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Reprodução Instagram

A governadora Raquel Lyra (PSD) nunca perdeu uma eleição. O ex-prefeito do Recife João Campos (PSB), também não. Mas um dos dois está muito perto de amargar sua primeira derrota de na carreira política.

Com alta chance de ser definida já no primeiro turno, a eleição em Pernambuco chegou à reta final com o jogo zerado. De acordo com o Datafolha divulgado na quinta-feira (1), Lyra tem 46% das intenções de voto ante 44% da Campos, empate técnico dentro da margem de erro de três pontos percentuais. Ivan Moraes, do Psol, apareceu com 2%. Considerando apenas os votos válidos, a governadora tem 50% e Campos, 47%.

Campos, 32 anos, e Lyra, 47, têm mais em comum do que a invencibilidade eleitoral. Ambos se projetam como promessa de renovação na política nacional dentro do campo democrático, com perfil pragmático. Os dois também vieram para a disputa eleitoral exibindo gestões bem avaliadas como vitrine.

A pesquisa foi encomendada pelo TV Globo e pelo jornal Folha de S.Paulo. O questionário foi aplicado entre os dias 28 de setembro e 1º de outubro, com 1.204 eleitores, de forma presencial. A margem de erro é de três pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. O protocolo de registro no Tribunal Superior Eleitoral é PE-06822/2026.

Legitimado pela reeleição com mais de 78% dos votos válidos em 2024 para a Prefeitura do Recife, Campos colocou-se como candidato a governador ainda no ano passado. Nas pesquisas, figurava como franco favorito.

Adversário se projetam como promessa de renovação na política nacional

A campanha, no entanto, foi mais difícil do que o previsto. No fim de 2025, Campos enfrentou seu primeiro desgaste político de porte. Na véspera do Natal, o então prefeito assinou a reclassificação de um candidato em um concurso da Procuradoria do Recife entre as vagas reservadas para portadores de deficiência (PCD). O candidato favorecido era filho de um magistrado que tinha arquivado uma investigação sobre fraude em contratos da Prefeitura do Recife.

Campos recuou da nomeação dias depois, mas ganhou da oposição o apelido de João Fura-Fila.

A partir de abril, as pesquisas começaram a revelar uma crescente melhora na avaliação da governadora, que, após ter feito um início de mandato com poucas entregas, começou a destravar investimentos estruturais no Estado. Os destaques foram as reformas de hospitais no grande Recife, o aumento do efetivo policial e melhora nas rodovias no interior, uma deficiência crônica do Estado.

Lyra chegou a virar a disputa em agosto, abrindo sete pontos de vantagem sobre o adversário, mas a dianteira durou pouco tempo. A pouco mais de duas semanas na votação, a governadora apareceu em vídeo gravado em 2025 sugerindo a laqueadura sem consentimento expresso em uma mulher que já tinha sete filhos. “Faz sem ela saber”, afirmou, durante visita a um hospital no interior do Estado.

Lyra assumiu a “fala infeliz”, fez vários pedido de desculpas, mas pesquisas que se sucederam trouxeram um aumento da vantagem de Campos no eleitorado feminino, empatando o pleito segundo as pesquisas.

A partir do “faz sem ela saber”, Campos entrou no melhor momento de sua campanha. A coroação foi na sexta-feira (25), com grande ato ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Recife. No evento, os aliados comemoram uma iminente nova virada na eleição em Pernambuco, que já estaria sendo aponta pelos trackings internos.

Sem se contaminar pelo clima de euforia, Lula poupou a governadora de críticas em todo seu discurso, acenando para um apoio provável em um segundo turno contra Flávio Bolsonaro.

Na última semana da corrida eleitoral, com as campanhas em guerras de narrativas e embates na Justiça Eleitoral, o caso Master entrou na eleição em Pernambuco. Nesta semana, a revista Veja publicou uma troca de mensagens em que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro discute com o advogado Luiz Rennó um suposto pagamento de mesada ao vice de Campos, Carlos Costa (Republicanos). O dinheiro seria repassado por meio de uma consultoria legislativa. A empresa disse à revista que prestou serviços ao Master e negou participar de reunião com instituições citadas nas investigações sobre a fraude.

O tema rapidamente ganhou as redes sociais e ainda não foi captado por pesquisa. “Pernambuco quer saber se você vai manter o seu vice na chapa?”, questionou a governadora a Campos, na quinta-feira em debate da TV Jornal.

João Campos ainda cursava engenharia civil, em 2016, quando assumiu a chefia de gabinete do governador Paulo Câmara (PSB), cria política do seu pai, marcando território da família Campos Arraes nos bastidores do poder após a morte do ex-governador Eduardo Campos em 2014, em acidente aéreo.

Campos: ex-prefeito do Recife iniciou campanha como franco favorito

Edson Holanda

Em 2018, João Campos obteve 10% do total de votos para a Câmara dos Deputados, o que lhe concedeu, logo em sua primeira eleição, o título de deputado federal mais bem votado da história do Estado.

Dois anos depois, Campos se licenciou do cargo para disputar a Prefeitura do Recife. Lula estava preso e a campanha de Campos contra a prima Marília Arraes, que na época estava no PT, adotou um tom antipetista, venceu com mais de 56% dos votos.

O verbo “nevar” na periferia do Recife, onde predomina a cultura do bregafunk, significa aderir à moda de descolorir os cabelos. João Campos nevou no Carnaval de 2024, em uma ação de marketing que consolidou o prefeito tiktoker como fenômeno das redes sociais.

No auge da sua popularidade, Campos foi ajudar a campanha de outros candidatos a prefeitos da esquerda no Nordeste e, pouco tempo depois, parte da sua equipe de comunicação foi cedida para ajudar o presidente Lula.

Campos ainda não tinha nem disputado sua primeira eleição, quando o PSB plantou a semente do que seria, em um futuro próximo, a maior a ameaça a sua hegemonia em Pernambuco. Decidida a disputar prefeitura de Caruaru naquele ano, mas sem apoio do partido do partido, a então deputada estadual Raquel Lyra rompeu com o governador Paulo Câmara (PSB) e, pelo PSDB, venceu a disputa, se reelegendo com em 2020.

Sobrinha do ex-deputado Fernando Lyra, um dos símbolos da redemocratização no Brasil, e filha do ex-governador João Lyra (2014), ela é formada em direito pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), foi advogada do Banco do Nordeste, delegada da Polícia Federal e Procuradora-Geral do Estado de Pernambuco.

Amargando o luto pela morte súbita no marido, o empresário Fernando Lucena, vítima de infarto no dia da votação em primeiro turno da eleição de 22, Raquel Lyra venceu o segundo turno contra Marília Arraes, que na época estava no Solidariedade, sem se posicionar em relação a disputa presidencial.

Com a vitória de 2022, Lyra rompeu um ciclo de 16 anos do PSB no poder, assumindo o governo sob elevada expectativa de ser a primeira mulher a alcançar o posto, e ainda trazendo outra liderança feminina, a ex-deputada Priscila Krause (PSD), como vice.

Lyra também não declarou voto para presidente nesta eleição, embora sempre a se refira a Lula com “gratidão” pelas parcerias institucionais. A governadora não abraça discurso ideológico de nenhum campo e os destaques de sua gestão reúnem desde um programa de auxílio mensal de R$ 300 para mães carentes à concessão do serviço de saneamento à iniciativa privada.

Com foco em se fortalecer para campanha de reeleição, Raquel Lyra trocou PSDB pelo PSD de Gilberto Kassab no ano passado, quando ainda figurava em larga desvantagem em relação a Campos segundo as pesquisas preliminares.

De lá para cá, a governadora fechou aliança com 130 dos 184 prefeitos do Estado, dos quais 79 são filiados ao PSD. “Se o Kassab pular da janela, pode pular atrás que tem uma rede de proteção embaixo”. A frase, famosa nos bastidores de Brasília, resume a fama de estrategista e articulador político de Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, que nunca dá um passo político no escuro.

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