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Impulso ao aço chinês não vem apenas dos subsídios

Isabela Nogueira: “São décadas de investimento massivo em infraestrutura que contribuem para reduzir custos das empresas chinesas”

Valor Econômico6 min read
Impulso ao aço chinês não vem apenas dos subsídios

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Divulgação

Com 52% da produção mundial de aço, capacidade produtiva gigantesca e mercado interno afetado pela desaceleração da construção civil e do setor imobiliário, a siderurgia chinesa deu o que falar na programação oficial e nos corredores do congresso organizado pelo Instituto Aço Brasil, em 29 e 30 de setembro, em São Paulo. Segundo a entidade, diante da concorrência da China, as importações brasileiras de laminados devem chegar a 4,9 milhões de toneladas em 2026, mais que o dobro da média de 2,2 milhões de toneladas registrada entre 2000 e 2019. Também dispararam as importações indiretas, o aço embutido em produtos como carros, máquinas e equipamentos. No caso, a previsão fica em 7,2 milhões de toneladas para este ano - alta de 143% sobre a média das primeiras duas décadas do século.

No setor automotivo, por exemplo, as exportações globais chinesas de veículos passaram de cerca de 1 milhão de unidades em 2020 para 12 milhões projetados para 2026, volume superior ao mercado anual europeu. A previsão foi feita pelo ex-embaixador do México na China e sócio da consultoria DGA Group, Jorge Guajardo, no painel “China - A Grande Ameaça”, do congresso Aço Brasil.

Em sua avaliação, mudanças demográficas, aliadas à política industrial do país, estão por trás do avanço chinês no mercado internacional em setores como o aço. É que, depois de décadas em que cerca de 20 milhões de chineses deixavam anualmente as áreas rurais rumo às cidades, o ciclo de urbanização perdeu força. Entre 1990 e 2020, segundo Guajardo, a China urbanizou uma população equivalente à de toda a Europa. Mas, desde 2022, a população vem encolhendo. No ano passado, o país asiático registrava 1,405 bilhão de habitantes - uma queda de 3,39 milhões em relação a 2024. Com o menor número de habitantes, analisa, cai o fluxo rumo às cidades e, consequentemente, a necessidade de construção de moradias e de novas obras de infraestrutura urbana, grandes consumidoras de aço.

Em 2021, segundo o Banco Mundial, o setor imobiliário e sua cadeia de fornecedores respondiam por cerca de 30% da economia chinesa. Desde então, as vendas de imóveis caíram para cerca de metade e os preços reais recuaram 23%.

“Nas nossas economias, quando o mercado cai e não há demanda, nós fechamos as plantas”, disse Guajardo. Na China, argumentou, o raciocínio é outro: “O motor de crescimento acabou, temos aço, vidro, cimento, petroquímica e carros de sobra (...) e vamos exportar para quem deixar.” Como resultado da estratégia, as exportações de aço do país dispararam, afirmou o consultor. Segundo dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o montante saltou para 131 milhões de toneladas em 2025 - uma alta de 153% em relação a 2020.

“A China vai desindustrializar o mundo inteiro se não fizermos nada agora”, disse. Na sua avaliação, sem ações para frear as importações chinesas, é impossível concorrer com o país. “Nunca vamos poder competir, porque eles têm um financiamento [estatal] a que nunca vamos ter acesso”, argumentou.

Segundo a OCDE, a taxa mediana de subsídios em relação aos ativos das siderúrgicas chinesas saltou de 1,1% em 2019 para 2% em 2024 - 15 vezes mais que a mediana dos membros da organizações e países parceiros. O cálculo considera a soma de subvenções, empréstimos concedidos abaixo das condições de mercado e, quando disponíveis, benefícios fiscais.

Para enfrentar a concorrência, em 2024 e 2025, o Brasil estabeleceu cotas para parte dos produtos de aço importados, independentemente da origem. Pelo sistema, é aplicada tarifa maior, de 25%, quando o volume importado supera os limites estabelecidos. Para quantidades enquadradas nas cotas, as alíquotas variam de 9% a 16%, conforme o produto. Neste ano, o governo ampliou as medidas, com a aplicação dos 25%, sem cota, para outros nove tipos de produto.

Medidas antidumping, segundo o Instituto Aço Brasil, derrubaram de 64% para 50% a participação da China no volume de aços laminados importados pelo mercado brasileiro nos primeiros oito meses de 2026, na comparação com igual período do ano passado. Ainda assim, o presidente da organização, Marco Polo Lopes, defende barreiras adicionais. “Somos pelo fortalecimento dos instrumentos de defesa comercial do país como um todo, para enfrentar importações predatórias, independentemente de sua origem”, diz. Entre as medidas defendidas, ele cita instrumentos como novas elevações tarifárias, cotas e processos antidumping.

A competitividade chinesa, porém, não vem apenas de subsídios, crédito farto e juros baixos. Quem avalia é Isabela Nogueira, professora do Instituto de Economia e coordenadora do Laboratório de Estudos em Economia Política da China da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela aponta outros fatores que ajudam a explicar os custos mais baixos de produção no país. Um deles é a rede ferroviária e portuária, que barateia o transporte e a logística e facilita o escoamento da produção para o mercado externo. “São décadas de investimento massivo em infraestrutura que contribuem para reduzir os custos das empresas chinesas de diversos segmentos”, diz. A energia, insumo de peso no setor siderúrgico, também favorece a competitividade, com preço “mais barato que o brasileiro” e também inferior ao europeu.

O volume de produção é outro fator importante. “Escala diminui também muito os custos”, afirma Nogueira. Segundo ela, o tamanho do mercado interno ajudou a formar um ciclo de demanda elevada, produção em larga escala e redução de custos que, no caso da siderurgia, agora se mantém com as exportações.

Em outra frente, a estrutura menos financeirizada da economia favorece o investimento produtivo. “Com menos espaço para busca de lucros no mercado financeiro, empresas se concentram mais na produção, na expansão da capacidade industrial e na inovação”, argumenta a economista.

Ela também aponta para mudanças nos motores da economia chinesa. “Eles estão transitando de um crescimento muito liderado pelos investimentos em ativos fixos mais tradicionais - entre eles, a siderurgia - para investimentos agora mais baseados em inovação, inteligência artificial, setores de energias renováveis e várias outras coisas que façam parte dessa quarta revolução industrial”, diz.

Ainda na sua avaliação, a indústria siderúrgica pode se beneficiar do atual “upgrade tecnológico” da economia. “Não é de se descartar que os ganhos de competitividade continuem acontecendo, agora não mais por ganhos de escala, mas por avanços tecnológicos importantes, como o uso de inteligência artificial e a adoção de novas formas de energia”, finaliza.

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