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Siderúrgicas veem potencial de expansão, mas cobram defesa comercial

No Brasil, o consumo per capita de produtos de aço somou 122,5 quilos em 2025. A título de comparação, na China, o consumo per capita foi de 562,1 quilos - mais do que o dobro da média global, de 209 quilos por habitante.

Valor Econômico5 min read
Siderúrgicas veem potencial de expansão, mas cobram defesa comercial

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Presente na construção civil, em automóveis, máquinas, embalagens e na infraestrutura, o aço está diretamente relacionado à atividade econômica. Quanto mais industrializado é um país, mais aço ele consome.

Diante do indicador 41% abaixo da média global, e 78% abaixo do consumo chinês, os maiores grupos siderúrgicos do país preferem ver o copo meio cheio: há chance de o setor dobrar de tamanho nos próximos anos, se o governo adotar medidas de defesa comercial, diante da enxurrada de importações de aço subsidiado, especialmente o chinês. A indústria afirma manter os investimentos em tecnologia, pessoal e infraestrutura em dia: entre 2020 e 2025, o aporte anual mais do que triplicou, para R$ 11,8 bilhões.

“Países que cresceram de forma consistente ampliaram sua base industrial e sua demanda por aço”, diz Marco Polo de Mello Lopes, presidente executivo do Instituto Aço Brasil. “Temos know-how e infraestrutura para fazer o mesmo.”

Na avaliação de Jorge Oliveira, presidente da ArcelorMittal Brasil e CEO da ArcelorMittal Aços Planos América Latina, o potencial de crescimento de longo prazo do mercado brasileiro faz do país uma das prioridades do grupo. “Neste ano, concluímos um ciclo de investimentos de R$ 25 bilhões iniciado em 2022, que contemplou aquisições, modernização, expansão de nossas unidades e energia renovável. Este ciclo integra uma estratégia mais ampla da empresa, de atuação com foco em produtos de maior valor agregado (‘downstream’), que continuará avançando em 2027.”

De acordo com Oliveira, o foco em produtos acabados busca ampliar portfólio, melhorar o atendimento ao mercado doméstico, reduzir a exposição a mercados menos atrativos e agregar valor ao produto. “Como país emergente, o Brasil precisa construir infraestrutura, moradias, energia e locomoção - e tudo isso precisa de aço”, afirma.

Em agosto, a companhia anunciou investimento de R$ 4 bilhões a R$ 5 bilhões em sua unidade de Tubarão, em Serra (ES). Com o aporte, vai produzir 560 mil toneladas por ano de bobinas revestidas, com foco na indústria automotiva. A ArcelorMittal também planeja a implantação de uma nova linha de produção de bobinas de aço laminado a quente na unidade do Pecém, em São Gonçalo do Amarante (CE).

“No plano externo, tivemos que nos adaptar às tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos”, afirma Oliveira. A empresa redirecionou os produtos semiacabados, de Tubarão e Pecém, para o mercado europeu. “Essa rota viabilizou o aproveitamento de sinergias operacionais globais, abastecendo as laminadoras do grupo na Europa”, acrescenta.

Já na Gerdau, que tem nos Estados Unidos mais de 70% de seu resultado operacional, o plano é valorizar a participação do Brasil no bolo. O grupo anunciou investimentos totais de R$ 4,7 bilhões este ano. A maior fatia está sendo destinada à expansão da capacidade de mineração da unidade de Miguel Burnier, em Minas Gerais, que vai receber R$ 3,2 bilhões.

Precisamos de mecanismos de defesa comercial ágeis e eficazes”

O grupo deu início a um processo de “renacionalização” das atividades, que prevê uma revisão estrutural dos negócios, substituindo operações antigas ou menos rentáveis por unidades mais modernas. A empresa desativou, por exemplo, etapas de produção da unidade Açonorte, em Recife, cortando a aciaria e a laminação. Sua meta é redirecionar os ativos para setores de forte expansão, como datacenters e energia renovável.

Gustavo Werneck, CEO da Gerdau, afirma que, em 2027, a indústria brasileira terá como prioridade ampliar sua competitividade e sua capacidade de gerar valor. “Isso passa, em primeiro lugar, por uma gestão rigorosa de custos, mas também pelo desenvolvimento de soluções e produtos inovadores alinhados às necessidades dos clientes”, diz o executivo.

A Aperam destaca também o foco em soluções mais sustentáveis. “Quando falamos em inovação, temos, por exemplo, o uso do aço inox em betoneiras de concreto visando maior durabilidade do equipamento”, diz Rodrigo Villela, CEO da Aperam South America & Renewables. O executivo lembra que esse material também reduz o consumo de combustível, já que o caminhão fica mais leve.

O grupo, que é o maior produtor integrado de aços especiais, inoxidáveis e elétricos da América Latina, pretende seguir valorizando a pegada ambiental. “Nós operamos com uma rota sustentável, baseada em carvão vegetal de florestas 100% renováveis, o que nos garante um balanço de emissões neutro em carbono e a certificação internacional Responsible Steel”, relata Villela.

Como parte dessa estratégia, a empresa direcionou cerca de 90% do aço produzido em Timóteo (MG) para o mercado interno, investindo em economia circular e inovação. “Desenvolvemos projetos como o Ecofinos, para o reaproveitamento de finos de minério e carvão, e o desenvolvimento do Biochar como um co-produto utilizado para sequestro de carbono nas áreas florestais”, afirma.

A Usiminas também tem investido em eficiência operacional, diz o CEO do grupo, Marcelo Chara. “Iniciamos a reconstrução de uma bateria da coqueria de Ipatinga [MG], um investimento de R$ 1,7 bilhão”, afirma o executivo que, no entanto, reclama da concorrência desleal chinesa. “Vemos com preocupação a inundação de carros, máquinas e equipamentos que chegam ao Brasil, com aço subsidiado. Precisamos de mecanismos de defesa comercial ágeis e eficazes para evitar a desindustrialização do país”, afirma o executivo.

Jorge Oliveira, da ArcelorMittal, concorda. “Não existe nação forte sem indústria forte”, diz. “O jogo global mudou: o multilateralismo está sendo substituído por protecionismo e regionalismo”, afirma. Segundo ele, existe até um desvio de rotas, com material subsidiado chegando via Vietnã, Indonésia, Egito e Malásia.

O executivo reforça que Estados Unidos, China, México, Canadá, Índia, além da União Europeia, vêm adotando tarifas de até 50% contra aço importado. Já o Brasil aplicou a taxa de 25% apenas para um pequeno grupo de produtos, permanecendo a maioria entre 10% e 12%, diz. “O resultado é que o aço excedente no mundo procura mercados onde a defesa comercial é insuficiente, como o nosso.”

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