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O recado claro do rali dos ativos: mudanças estruturais

A expectativa de mudanças de política econômica, com a vitória no primeiro turno do senador Flávio Bolsonaro, acompanhada de uma avalanche de votos para o PL, maior partido da Câmara dos Deputados e do Senado, provocou um rali de todos os ativos financeiros e queda forte dos juros futuros, além de boa valorização do…

Valor Econômico5 min read

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A expectativa de mudanças de política econômica, com a vitória no primeiro turno do senador Flávio Bolsonaro, acompanhada de uma avalanche de votos para o PL, maior partido da Câmara dos Deputados e do Senado, provocou um rali de todos os ativos financeiros e queda forte dos juros futuros, além de boa valorização do real. A base do otimismo generalizado, que por enquanto se apoia apenas em promessas, é a de que, se eleito, Flávio Bolsonaro realizará o ajuste fiscal necessário para inverter o endividamento público crescente e impulsionará as reformas para destravar o crescimento. A melhoria súbita das perspectivas econômicas, antes deprimidas pela desaceleração da economia, pelos juros altos e pela inadimplência, mostrou o potencial e a carência premente por controle dos gastos e mudanças estruturais.

Os mercados tentaram antecipar o que ocorrerá com os preços dos ativos em um possível governo do candidato do PL. O dólar chegou a ter sua maior queda diária desde julho de 2018, para R$ 4,95, na manhã de ontem. O Ibovespa ultrapassou pela primeira vez a marca dos 200 mil pontos, atingindo 209.314, com pico de alta de 9,04% na tarde de ontem. O movimento do dólar ajudaria o Banco Central (BC) na tarefa de trazer a inflação de volta à meta, permitindo também queda mais rápida da taxa Selic e dos juros em geral. A redução dos juros favoreceria os setores cíclicos mais influenciados hoje pelo custo do dinheiro, como os ligados ao consumo doméstico, e as empresas com balanços enfraquecidos, estressados pelo peso dos juros, avalia a equipe de estratégia em ações do banco HSBC.

Essa valorização atingiu em cheio ontem os papéis das grandes varejistas e empresas de construção. À tarde, as ações da Magalu subiam 26% e as da C&A, 22,3%. Os grandes comerciantes de alimentos foram levados por essa onda, com Assaí em alta de 17,7%. Só ontem, as ações negociadas na B3 viram seu valor de mercado aumentar em R$ 410 bilhões. Os juros futuros fizeram movimento inverso, com queda de 1 ponto percentual nos contratos DI de vários vencimentos. O de janeiro de 2028 chegou a recuar de 13,51% para 12,58%, o de janeiro de 2029, de 13,51% para 12,52%, e o de 2031, de 13,99% para 12,60%. NTNs com IPCA de todos os vencimentos caíram abaixo de 7%.

Com a vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, os investidores já começaram a apostar em uma aceleração do ritmo de queda da Selic, que poderia ser de 0,5 ponto percentual na reunião do Copom de dezembro. A possibilidade de isso ocorrer, segundo o mercado de opções digitais, subiu de 18% para 45%. Há aí componentes especulativos, porque se mudanças recentes ocorreram no front inflacionário, elas foram na direção de aumento do IPCA no curto prazo e de manutenção da desancoragem das expectativas.

A prioridade do ajuste fiscal é consenso entre os investidores e leva em conta a nova correlação de forças no Congresso. As legendas de direita, com PL como força principal, somam 41,7% da Câmara e 51,8% do Senado, segundo a consultoria Oxford Economics. Essas legendas comungam interesses com partidos do Centrão (MDB, PSD, Republicanos), e, juntos, reúnem mais de três quintos dos deputados, quórum suficiente para a aprovação de Proposta de Emenda à Constituição (PEC), que exige 308 votos favoráveis. Os partidos da esquerda (PT, PC do B, PV e PSB) têm agora bancada de 124 deputados.

Além disso, os bolsonaristas abocanharam espaços de legendas mais moderadas e fisiológicas, com o PL ampliando sua bancada de 98 deputados para 121. União Brasil perdeu 6 cadeiras, o PP e o PSD, 5 cada na Câmara, enquanto o Novo, linha auxiliar do PL, elegeu 10 deputados, dobro do que tinha.

Há em tese mais facilidade para a composição de interesses com eventual presidente do PL, que contará com base parlamentar robusta. Resta ver se há de fato vontade política e programática de realizar o ajuste fiscal e as reformas. O senador Flávio Bolsonaro foi vago em ambas e terá a chance de explicitar suas propostas no segundo turno. Sobre o ajuste, ressurgiu o velho sonho de Paulo Guedes, ministro de Jair Bolsonaro, de obter R$ 1 trilhão com a venda de imóveis da União, uma mudança patrimonial no orçamento que não resolve o problema, assim como corte radical de ministérios, importante, mas de economias modestas. Se o modelo for o praticado pelo governo do pai, Jair Bolsonaro, os investidores se frustrarão. Não houve interesse em reformas, a administrativa foi vetada e a da Previdência foi feita à revelia do Planalto, que se empenhou em preservar privilégios dos militares.

O recado do rali serve também para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que até o fechamento das urnas do segundo turno, em 25 de outubro, continua no páreo. Precisa se comprometer com um ajuste fiscal profundo, sem gastos contabilizados fora do arcabouço e com corte estrutural de despesas, bem diferente do que vem praticando neste terceiro mandato.

O debate a fundo das propostas dos candidatos é vital para o correto desenho das perspectivas econômicas. Há grande entusiasmo com mudanças. Mas para isso será preciso compromissos claro dos candidatos, e o momento decisivo para fazê-los diante dos eleitores é agora.

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