Gás que nasce do lixo ganha espaço na transição energética
O Ecoparque da Orizon em Paulínia, no interior paulista, recebe cerca de 4,5 mil toneladas de resíduos por dia, vindos de mais de 26 cidades da região, onde vivem mais de 3 milhões de pessoas.

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Desde março, todo o biogás gerado pela decomposição desse lixo segue para a OneBio, planta construída pela Edge, empresa de soluções de gás natural e biometano da Compass Gás & Energia, em parceria com a Orizon, dentro dos 2,5 milhões de metros quadrados do ecoparque. Ali, o biogás é purificado até virar biometano, combustível renovável com a mesma molécula do gás natural, e injetado na rede de distribuição.
Com capacidade nominal de até 225 mil metros cúbicos por dia, a OneBio é a maior planta de biometano do país. O volume equivale a mais de 1,5% do consumo de gás natural do Estado de São Paulo, segundo a Edge. O investimento total foi de R$ 450 milhões, com financiamento do BNDES — R$ 359,8 milhões vieram do Fundo Clima —, aplicado na planta de purificação e na infraestrutura de injeção do gás na rede. A operação evita a emissão de mais de 100 mil toneladas de CO₂ equivalente por ano.
Na divisão do negócio, a Orizon opera o aterro e capta o biogás, enquanto a OneBio cuida da purificação, da produção e da comercialização do biometano.
Para a Orizon, o gás faz parte de uma estratégia para transformar o aterro, que por muito tempo foi apenas um custo para prefeituras e empresas, em fonte de receita. Segundo Diogo Arantes, Superintendente de Operações da companhia, o segmento de destinação de resíduos vem se transformando na última década em busca de soluções de economia circular, que também se mostram uma estratégia econômica bem-sucedida.
Em Paulínia, o biometano se soma a outras frentes. A Orizon certifica e vende créditos de carbono gerados no aterro. Já o lodo resultante do tratamento do chorume é transformado em biofertilizante orgânico em parceria com a Tera Ambiental, numa produção de cerca de 1.600 toneladas por mês, vendida a produtores rurais.
O retorno, porém, exige tempo. Segundo Arantes, um aterro leva de dois a quatro anos recebendo resíduos até ter biogás suficiente para produzir biometano em escala e justificar o investimento numa planta. A Orizon opera aterros também na Grande Recife e em Jaboatão dos Guararapes (PE), Nova Iguaçu (RJ), Sabará (MG) e Presidente Prudente (SP). Matéria-prima não falta.
Os brasileiros geram 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, e apenas 58,5% desse volume vai para aterros sanitários, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2024, da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema). Estudos da entidade indicam que apenas direcionar os resíduos de cidades com mais de 320 mil habitantes para aterros com plantas de biometano permitiria produzir 2,86 milhões de metros cúbicos por dia do combustível.
“Se pensarmos que o Brasil gera cerca de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, a oportunidade é grande”, afirma Arantes.
O executivo explica que a empresa também já tem investido em plantas de biometano em outras operações. Em março deste ano, também inaugurou sua nova planta de biometano no Ecoparque Jaboatão, em Pernambuco, com um investimento de R$ 258 milhões, com recursos do Banco do Nordeste.
Outra vantagem é a regularidade. “Como o aterro recebe resíduos continuamente, a produção não está diretamente vinculada a ciclos agrícolas ou períodos de safra, como ocorre com algumas outras matérias-primas utilizadas na produção de biometano”, afirma Catarina Amaral, diretora de Operações, Logística e Tecnologia da Edge.
Maior planta do país, a OneBio, Joint-Venture da Edge com a Orizon, recebeu R$ 450 milhões de investimentos
Naiara Bertão/Valor
Indústria e transporte pesado puxam a demanda
A Edge não divulga preços nem condições comerciais, mas afirma que a procura vem principalmente da indústria e do segmento de transporte pesado. Segundo a empresa, a competitividade do biometano depende de fatores como perfil de consumo, localização, oferta disponível e atributos ambientais.
Um dos clientes é a Unilever. Em 2025, a companhia passou a receber biometano certificado na fábrica de sabonetes de Valinhos (SP), onde são produzidas marcas como Dove, Lux e Rexona. Foi a primeira adoção de biometano certificado no mercado livre por uma empresa de bens de consumo no país, segundo a Edge, com cerca de 2 mil toneladas de CO₂ evitadas por ano.
Em agosto, o fornecimento foi ampliado para a fábrica de Aguaí (SP), a maior planta de desodorantes da Unilever na América Latina, que passou a operar integralmente com energia renovável. Com a mudança, mais de 85% do volume produzido pelas fábricas da Unilever no Brasil passa a ser fabricado com energia limpa. Uma quarta linha de produção em Aguaí, prevista para 2027, também será abastecida com biometano.
“Este é nosso segundo contrato com a Edge, uma parceria que nos permite operar de forma segura e contínua, ao mesmo tempo em que adotamos uma solução sustentável e inovadora para avançarmos na ambição de zerar emissões e reduzir o impacto ambiental dos aterros sanitários”, diz Eduardo Machado, diretor da planta da Unilever em Aguaí, na ocasião da divulgação da parceria.
Um dos argumentos de venda é que, como as moléculas são equivalentes, o biometano injetado na rede chega pela mesma infraestrutura e é usado nos mesmos equipamentos do gás natural, sem que o cliente precise alterar a operação. Também é possível misturar os dois gases, com incorporação gradual da fonte renovável.
No transporte pesado, a Edge anunciou em junho o projeto GreenTech Logística Integrada, com o Grupo Nimofast, para viabilizar, ao longo de dez anos, uma frota de caminhões movidos a gás natural liquefeito (GNL) e biometano. Estudo de avaliação de ciclo de vida do poço à roda, da ACV Brasil, citado pela empresa, indica que um caminhão pesado rodando só com biometano emite 87% menos gases de efeito estufa do que um movido a diesel. Com mistura meio a meio de biometano e gás natural, a redução é de 56%.
Outras empresas disputam esse mercado. Em agosto, a Ultragaz inaugurou em Paulínia sua primeira estação própria de abastecimento de biometano, com capacidade para 20 mil m³ por dia e para atender cerca de 200 caminhões diariamente. Os veículos transportam GLP, e a troca de combustível deve reduzir cerca de 960 toneladas de CO₂e por ano nas operações da empresa. Segundo a companhia, a unidade marca o início de um plano de expansão, com novas bases de biometano já previstas em outras unidades do país.
A Ultragaz também vende o combustível a terceiros. Após adquirir em 2022 a Neogás, distribuidora de gás natural comprimido (GNC), a empresa passou a comercializar biometano em operações off-grid, sem conexão à rede, e hoje atende clientes industriais como PepsiCo, Iconic, Henkel e Natura.
Em janeiro, anunciou parceria com a JDE Peet’s, dona do Café Pilão, para que a fábrica de Jundiaí (SP) passasse a operar com biometano de aterro a partir do primeiro semestre de 2026 — a primeira indústria de café do país a adotar a fonte, segundo a companhia, com cerca de 2,5 mil toneladas de CO₂ evitadas por ano. O gás chega à fábrica por caminhões movidos pelo próprio combustível, sem uso de dutos. “O biometano é uma das principais alavancas para avançar a transição energética do país. Na Ultragaz, trabalhamos para democratizar o acesso a esse combustível renovável”, afirmou Erik Trench, diretor de Gases Renováveis da Ultragaz, ao divulgar o negócio.
São Paulo concentra quase metade das usinas
O Estado de São Paulo reúne 9 das 21 plantas de biometano em operação no país, e outras 12 unidades paulistas estão em fase de autorização na Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). A previsão é que o estado chegue a 21 plantas até 2028. Quatro das plantas paulistas ficam em aterros sanitários e somam 353 mil m³/dia de capacidade, segundo a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil). De acordo com a secretária Natália Resende, a capacidade instalada no estado saiu de cerca de 5 mil m³/dia no fim de 2022 para mais de 700 mil m³/dia, e a meta é chegar a 1 milhão de m³/dia entre 2026 e 2027.
Ao Valor, a secretária atribuiu o avanço à previsibilidade regulatória. “Aumenta muito os investimentos, porque há estabilidade maior para investir. São setores que estão avançando, inovadores, e precisam dessa segurança para se desenvolver”, disse. A Resolução Conjunta Semil/SAA nº 001/2024 estabeleceu diretrizes de licenciamento para biogás e biometano, e a Cetesb estruturou procedimentos técnicos específicos para o setor. O número de licenças ambientais emitidas para esses projetos passou de 26 em 2024 para 87 em 2025.
Em dezembro de 2025, a Arsesp publicou norma que criou a TUSD-Verde, pela qual os custos de conexão das plantas à rede de gás canalizado são pagos exclusivamente pelos fornecedores de biometano, sem impacto para os demais usuários e sem subsídios cruzados para os consumidores convencionais de gás encanado. O biometano é um dos pilares do Plano Estadual de Energia 2050, e o governo elabora um plano decenal, com horizonte até 2034, e um plano específico para biogás e biometano, com a Fiesp e associações do setor. Entre os incentivos estaduais está a isenção de IPVA para caminhões e ônibus movidos exclusivamente a hidrogênio ou gás natural, inclusive biometano, de janeiro de 2025 a dezembro de 2029, aprovada pela Assembleia Legislativa (Alesp) em dezembro de 2024.
Os aterros também ganham escala fora de Paulínia. O Aterro Sanitário de Caieiras, na Região Metropolitana de São Paulo, operado pela Solví em parceria com a MDC Energia, produz hoje cerca de 67 mil a 70 mil m³ de biometano por dia. A unidade recebe aproximadamente 10,5 mil toneladas de resíduos diariamente e é considerada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) o maior aterro sanitário da América Latina.
A produção deve crescer de forma escalonada: a primeira etapa da expansão, prevista para 2027, acrescentará cerca de 110 mil m³/dia, levando a capacidade para perto de 177 mil m³/dia; em 2028, a expectativa é chegar a 220 mil m³/dia e, em 2030, a 400 mil m³/dia. A planta será conectada à rede da Comgás, conexão aprovada pela Arsesp em maio de 2026, com cerca de 5,3 quilômetros de rede e uma estação de transferência de custódia (Bio-Citygate). Com isso, o combustível deixa de depender exclusivamente do transporte em carretas de gás natural comprimido.
Em estudo publicado em 2020, a IEA aponta que o biogás de aterros com sistema de recuperação de gás está entre as rotas de menor custo, com custos de produção abaixo de US$ 3 por unidade de energia equivalente a 1 milhão de BTU (MBtu). Para o biometano, a IEA diz que a produção a partir do biogás captado em aterros é tipicamente a opção mais barata entre as rotas avaliadas.
A IEA estima que o Brasil concentra 12% do potencial técnico sustentável global de biometano, mesma fatia da China e atrás apenas de Estados Unidos e União Europeia.
Mas o potencial vai além do lixo urbano. Estudo contratado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), com apoio técnico da Semil, estima o potencial de produção de biometano em São Paulo em 6,4 milhões de m³/dia, capaz de gerar até 20 mil empregos diretos, indiretos e induzidos. Mais de 80% desse potencial está no setor sucroenergético, a partir de resíduos como vinhaça, torta de filtro, bagaço e palha.
Para ampliar o escoamento, o estado firmou parceria com o Swedfund, instituição financeira de desenvolvimento do governo da Suécia, que prevê cerca de R$ 5 milhões, custeados pelo governo sueco, em estudos para dimensionar investimentos em novos gasodutos de biometano e avaliar modelos de negócio para biofertilizantes produzidos a partir do digestato, subproduto da digestão anaeróbica.
Há também incentivos em vigor. Pelo RenovaBio, usinas de biometano certificadas podem gerar créditos de descarbonização (CBIOs), que, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), podem elevar a receita do produtor em 15% a 20%, considerando os preços de 2023. O Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura (Reidi), que suspende PIS/Pasep e Cofins sobre bens e serviços destinados às obras, já beneficiou ao menos 17 projetos de biometano, com redução de 6% a 10% nos custos de investimento — cerca de R$ 225 milhões somados. Já o programa Combustível do Futuro criou metas anuais de descarbonização para o gás — de 1% em 2026 —, que podem ser cumpridas com a compra ou o uso direto de biometano ou com a aquisição do Certificado de Garantia de Origem de Biometano (CGOB).
Infraestrutura e custo são os gargalos
Para a Edge, a restrição não está na matéria-prima. “O principal desafio não é a oferta de gás, é a infraestrutura e o custo ligado a ela”, afirma Catarina. Segundo ela, escoamento, processamento e transporte pesam de forma relevante no preço final, o que favorece plantas conectadas à rede, como a OneBio. “O marco do biometano avançou bastante nos últimos anos e o passo que falta é dar mais segurança e uniformidade às regras entre os estados, o que ajuda a destravar novos investimentos”, diz. Ela cita ainda medidas que incentivem o uso de gás e biometano, sobretudo no transporte.
Questionado sobre novos investimentos, a executiva da Edge explica que a empresa está concentrada na operação da OneBio e em entregar gás a seus clientes e, por fazer parte de um grupo de capital aberto, novos investimentos só serão divulgados quando estiverem contratados e maduros para anúncio.
Ecoparque da Orizon em Paulínia, no interior paulista, recebe cerca de 4,5 mil toneladas de resíduos por dia
Naiara Bertão/ Valor
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