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Crime organizado avança no Ceará, expulsa famílias e tenta influenciar eleição no Estado

Policial com fuzil em Uiraponga: briga entre lideranças de facção esvazia distrito e moradores temem voltar para casa, um ano depois de migração em massa

Valor Econômico14 min read
Crime organizado avança no Ceará, expulsa famílias e tenta influenciar eleição no Estado

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Jarbas Oliveira/Valor

Em um pequeno vilarejo no sertão do Ceará, dezenas de casas coloridas estão com portas e janelas fechadas. O silêncio é constante. Nas ruas de terra batida e areia, o único movimento é de cabras e bodes, em busca de sombra. Na praça principal, em frente à igreja, dois policiais, com fuzil nas mãos, explicam como Uiraponga, distrito de Morada Nova, a 170 km de Fortaleza, transformou-se em uma “cidade fantasma”. Do lado esquerdo da igreja, foram dez homicídios. Na pracinha, perto dos brinquedos para crianças, mais três mortes. Outra dentro do posto de saúde. Um dos assassinatos, marcado pela extrema violência, foi a gota d’agua. Em poucas semanas, cerca de 2 mil moradores fugiram em massa, em meio à guerra entre integrantes de facção criminosa.

O avanço do crime organizado e a presença constante de facções em cidades do interior do Ceará e na periferia de Fortaleza são um dos principais temas da disputa pelo governo do Estado nestas eleições, no embate entre o governador do Estado, Elmano de Freitas (PT), e o ex-governador Ciro Gomes (PSDB). Elmano ressalta as ações de inteligência do governo para combater as facções e a contratação de mais policiais. Já Ciro tem dito que o Estado está “completamente entregue” às facções. A violência aparece como principal preocupação do eleitor, em pesquisas do Datafolha e Quaest.

A briga entre integrantes da mesma facção gerou uma onda de violência e Uiraponga ficou deserto. A escola ficou fechada por meses e as crianças foram transferidas. O posto de saúde, a igreja e os comércios também fecharam. “Em todas as ruas daqui já teve homicídio”, relata um dos policiais que acompanha a reportagem. A disputa entre integrantes de facção criminosa pela venda de drogas e pelo controle territorial, com o barulho frequente de tiros, os assassinatos nas ruas e o medo de ser a próxima vítima expulsaram os moradores. Na fuga, algumas famílias levaram portas e janelas da casa, para reconstruí-la em outro lugar. Outros deixaram quase tudo para trás, com a expectativa de voltarem logo. Até hoje, um ano depois da saída em massa, poucos voltaram. O medo ainda domina.

A expulsão de moradores pelas facções, para fugir da violência ou por uma ordem direta das lideranças do crime organizado, tornou-se frequente no Ceará. Em 2025, foram registrados 350 casos de ameaça de expulsão de famílias. Neste ano, foram 60, segundo o governador do Estado. Há uma imensa subnotificação de casos, com o receio de retaliação.

Em uma das poucas casas de Uiraponga com as portas e janelas abertas, a família de João* relata a rotina de medo. “Falavam que não ia ter mais água, luz e ameaçavam a gente para sair”, diz. Nascido e criado no distrito, João continuou na casa para cuidar da mãe, de 80 anos, que não quis sair. “No começo, a polícia entrava na casa das pessoas e deixava todo mundo ainda mais abalado.” A esposa foi para a casa de uma das filhas em Morada Nova, mas voltou recentemente. “Aqui era um tormento”, diz a esposa. Uma das filhas do casal, com 27 anos, afirma que é difícil acreditar no que aconteceu no vilarejo. “A gente via as reportagens falando essas coisas e não achava que ia acontecer aqui.” A outra filha, com 24 anos, complementa: “Sentimos um vazio, como se tivéssemos perdido uma pessoa, um ente muito querido”, diz. “Algumas famílias saíram porque foram ameaçadas pela facção, mas a maioria saiu por medo. A gente fica olhando como está agora e como era antes, e dá um vazio.”

Os homicídios no distrito aumentaram nos últimos anos em meio à disputa entre as facções Guardiões do Estado, Massa Carcerária, Primeiro Comando da Capital, Terceiro Comando Puro Cangaço, um braço do Terceiro Comando Puro e Comando Vermelho. Moradores dizem que quando o CV expandiu seu domínio, as mortes violentas caíram. Policiais mostram para a reportagem rotas de fuga usadas por bandidos para o município vizinho, São João de Jaguaribe, que já foi o mais violento do país em 2022, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança, e dizem que Uiraponga ainda é “área vermelha”, com risco iminente de violência.

“Eu ouvia o ‘papoco’ [som do tiro] e ficava muito nervosa. Ouvi matar um vizinho”, diz Neusa, de 77 anos, que se refugiou por meses em Morada Nova, sede do distrito de Uiraponga, mas decidiu voltar. A aposentada evita falar sobre os crimes. “Aqui ninguém sabe, ninguém viu.” Próximo dali, Mariana, de 54 anos, também se mudou para Morada Nova quando a escola do distrito fechou, para manter os netos, que cria como filhos, estudando. No lugar da casa própria, onde morou a vida toda, teve que gastar R$ 500 com o aluguel, apertando ainda mais seu orçamento. No começo do ano, voltou. “Foi um fim de mundo, mas eu não tenho ‘coração’ para deixar minhas raízes, que estão aqui.”

Com a repercussão negativa da guerra entre facções, a prefeitura e o governo estadual têm feito ações para mostrar que o Estado está presente e incentivar o retorno das famílias. A escola pública e o posto de saúde voltaram a funcionar. Foram instaladas câmeras de segurança em parte dos postes e duas viaturas da Polícia Militar costumam circular nas ruas do povoado. A pichação de “TCP= CE cangaço”, em referência à facção Terceiro Comando Puro Cangaço, em um comércio a poucos quilômetros da entrada do distrito, foi coberta grosseiramente com tinta azul. Ao lado do portal da entrada do vilarejo, a mensagem de “todos juntos pela paz” está pintada em um muro. Além do retorno de uma parcela pequena dos antigos moradores, algumas casas foram ocupadas por funcionários que fazem obras no distrito, como pavimentação.

Sentimos um vazio, como se tivéssemos perdido um ente muito querido”

John Darly Oliveira Bento, vice-presidente da associação sertão junino de Uiraponga, diz que cada retorno de família “é uma alegria”. Nas estimativas não oficiais, cerca de 20% das famílias voltaram. “Aqui é uma comunidade antiga, bisavós e avós se criaram no distrito. É como se fosse um pedaço de nós”, diz. As ações da prefeitura e do governo do Estado são bem-vindas, afirma, mas há o temor de que estejam vinculadas ao calendário eleitoral. “Tememos pelo futuro e esperamos que quando passarem as eleições as coisas continuem progredindo”. Luana*, de 27 anos, reforça. “Há males que vêm para o bem. O distrito estava esquecido e agora estão fazendo alguma coisa. Só espero que não parem tudo depois das eleições.”

A Prefeitura de Morada Nova não quis falar sobre o caso.

A presença das facções criminosas está cada vez mais frequente na política do Ceará. Em Morada Nova, seis vereadores foram presos neste ano, acusados de envolvimento com facções, em um caso que atingiu quase metade da Câmara Municipal, com 15 vereadores, incluindo o presidente da Casa. As investigações apontam o financiamento das campanhas dos vereadores por facções. Em troca, eles atuavam em um esquema de contratos públicos que movimentou R$ 500 milhões, mais do que o orçamento da cidade.

O Ministério Público Federal Eleitoral avalia como um dos casos mais emblemáticos e “escrachados” de como as facções estão entrando na política, seja com a eleição de integrantes de facções ou de pessoas financiadas pelo crime organizado, ou seja pela entrada em contratos públicos. “Quando as facções entram no poder público, passam a operar nas atividades lícitas”, alerta o procurador regional eleitoral Celso Leal.

A expulsão dos moradores de Morada Nova pelo crime organizado não é algo isolado. Em alguns casos, a Polícia Militar faz a escolta de quem teve que deixar sua casa.

Na periferia de Fortaleza, a estudante Luiza* viu sua família ser dividida por conta das facções no bairro Vila Velha. A jovem não podia atravessar uma poça de lama que separava a parte do bairro onde vive uma tia porque a região era comandada por outra facção. Em uma visita que fez à casa da tia, Luiza enfrentou ameaça de morte se fosse novamente para a região “rival”. A travessia sem problemas só foi possível depois que o Comando Vermelho tomou conta das duas regiões. “Quando vira uma facção só, fica mais fácil. Dá mais segurança e para de ter brigas e mortes.”

O pai de Luiza se desentendeu com o líder da facção no bairro e foi forçado a fugir, em 48 horas, para não ter a casa alvejada com toda a família dentro. A mãe, com boa relação com os vizinhos e com os faccionados da região, ficou, mas deixou o local meses depois, com medo. Uma parte do bairro teve uma onde de fuga e de expulsões de moradores, por conta de brigas entre facções. As casas abandonadas foram depois distribuídas pela facção vencedora. “Parecia uma ação do governo, de anunciar casa para quem quisesse.”

Falavam que não ia ter mais água, luz e ameaçavam a gente para sair”

Luiza diz que as regras de convivência são ditadas pelo líder da facção e quem desobedecer vai para o “tribunal do crime”. Uma das principais regras é não fazer com que a polícia vá ao local. Brigas familiares, dívidas e outras questões são mediadas pelo líder local. A jovem lembra que sua prima quase foi morta ao ser acusada de trair o namorado, ligado à facção, mas foi “absolvida” por falta de provas.

Ao longo da última década, Luiza viu a antiga gangue local, dos “gafanhotos”, ser absorvida por facções como o Guardiões do Estado (GDE) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). Desde pequena, relata ver cenas de extrema violência. “A guerra não está no Irã. Está aqui, nas comunidades.” Para quem não fugiu ou não se envolveu com facção, um caminho são as igrejas evangélicas. “Elas servem para lavar a alma e o passado. Nem penitenciária faz isso”, diz. “Só pode sair da facção se for para igreja.”

Em bairros da periferia de Fortaleza e em cidades da região metropolitana, o crime organizado faz com que todos o percebam. Nas paredes, é comum ver siglas das facções pichadas nos muros, como o CV do Comando Vermelho, ou recados como “abaixa o vidro e tira o capacete”, para que os “olheiros”, que costumam ficar em esquinas e comércios, saibam quem está por lá. A regra é clara: não expor nem falar sobre o que acontece por lá. A ameaça a quem desobedecer é mais clara ainda: “cada fofoca, dez pauladas”, registra uma pichação, ao lado de uma secretaria municipal de Caucaia, na região metropolitana.

No bairro Serrinha, de Fortaleza, o “CV” está por todas as partes. Perto do “areião”, como é conhecida a quadra, outro recado: “o melhor cego é aquele que tudo vê e nada fala”. Outra pichação comum é “1 Deus, 2 nós e 3 bala”, que virou música, em referência à “primeiro Deus, segundo a facção e terceiro o extermínio dos rivais”. No Pirambu, bairro conhecido como a maior favela do Ceará, as siglas de facções disputam espaço com as pinturas em preto feitas pelo governo estadual para apagar as pichações, com a mensagem “Ceará contra o crime”. Há ameaças ainda contra quem desrespeita a boa convivência, como “paulada para quem jogar lixo” na rua.

Grandes conjuntos habitacionais do Minha Casa, Minha Vida, em áreas periféricas da capital, com milhares de moradias, são controlados por lideranças de facções, que determinam qual provedor de internet pode ser usado (com o pagamento de uma taxa à organização criminosa), quem pode comercializar água e gás, quem usará o uso de salão de festas, qual empresa de caçamba pode retirar entulho, quem pode visitar e até mesmo quem pode ou não morar lá. Em alguns bairros periféricos ainda com facções em disputa, o crime organizado controla até mesmo quem pode usar o posto de saúde e a escola, com a proibição de quem vem de áreas “rivais”.

A reportagem colheu relatos sobre pessoas selecionadas para receber uma moradia pelo Minha Casa, Minha Vida, mas que foram impedidas de mudar porque moravam em bairros controlados por facções rivais. Outras desistem por medo de retaliação, por terem algum tipo de ligação com facções adversárias do bairro em que foram sorteadas. Os apartamentos vazios são alugados por lideranças de facções para pessoas de sua confiança. Julia* relata que foi proibida de alugar um quarto de seu apartamento para quem morasse fora do conjunto habitacional, para que não entrasse ninguém de área “rival”. Em alguns casos, o síndico é indicado pela facção.

Lideranças comunitárias de bairros periféricos de Fortaleza e de conjuntos habitacionais relatam que o tráfico de drogas hoje parece estar em segundo plano nos “negócios” de facções. “Eles lucram com a internet, com a taxa ‘CV’ [Comando Vermelho] que cobram de comerciantes”, diz José, liderança popular de um dos maiores conjuntos habitacionais de Fortaleza. “Antes era só droga. Agora estão mais na parte comercial e na política.” Na região do bairro Parangaba, na capital cearense, Lucas reforça. “O crime se adaptou ao processo do mercado.”

Quando facções entram no poder público, operam nas atividades lícitas”

Integrantes do Escritório de Direitos Humanos e Assessoria Jurídica Popular Frei Tito, órgão da Assembleia Legislativa do Ceará, avaliam que o avanço do Comando Vermelho no Estado sobre as demais facções fez com que os deslocamentos forçados da população diminuíssem, ao mesmo tempo em que houve um aumento da exploração econômica sobre os moradores e comerciantes. Outra consequência do predomínio do CV foi a queda dos homicídios. Com menos brigas entre facções, menos mortes foram registradas.

Pesquisadora do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC), a antropóloga Jânia Perla de Aquino diz que cidades do Ceará se tornaram locais com “gestores com poder de fogo”. “Há uma interdição de direitos básicos”, afirma a professora da UFC. “O dado mais perverso dessa guerra entre facções é a expulsão das pessoas.”

Palco de brigas e disputas entre facções, o Ceará é visto como um Estado estratégico para o escoamento de drogas por facções criminosas, pela proximidade geográfica com o continente europeu, com o porto de Pecém e o aeroporto internacional de Fortaleza. Há cerca de dez anos é registrada a presença maior do Comando Vermelho no Estado.

Coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do Ministério Público do Ceará, o promotor Oscar Stefano Fioravanti diz que o Comando Vermelho tem influência em cerca de 85% dos municípios, mas não o controle territorial, que é quando o Estado não consegue entrar em alguma região. “Temos intensificado o combate ao crime organizado. A maioria das lideranças das facções do Estado ou foram presas ou estão fora do Ceará, como no Rio de Janeiro”, diz.

No comando da Federação de Bairros e Favelas de Fortaleza, o líder comunitário Ivan Batista avalia que o crime organizado avança nas regiões em que falta a presença do Estado. “O pessoal foca muito na segurança, mas tem que ter outras ações, como o ensino integral e profissionalizante, mais oportunidades de emprego e de renda.”

Na campanha eleitoral, Ciro Gomes critica a falta de investigação da polícia civil sobre as facções e de ações efetivas para combater o crime organizado. O candidato defende a contratação de delegados e mais investimentos na inteligência policial. Ciro diz que o avanço das facções no Estado, sobretudo do Comando Vermelho, entre 2015 e 2025, coincide com o período em que o grupo político do governador está no poder. “Você vai vendo o itinerário da impunidade generalizada como explicação óbvia para o exagero da violência.”

O governador reconhece a presença e o avanço das facções criminosas no Ceará, mas ressalta que não há territórios dominados pelo crime no Estado, onde a polícia não pode entrar. Elmano de Freitas diz que o Ceará contratou mais policiais, investiu em ações de inteligência (“passamos de 123 agentes de inteligência para 794”) e afirma que as ações de sua gestão já tiraram, com decisão da Justiça, R$ 3,3 bilhões do crime organizado. “Tem uma maior presença do Estado e uma mudança da legislação, com a Lei Antifaccção”, diz.

Dona de uma casa em Uiraponga, Inês* vive há um ano de aluguel em Morada Nova com a família. A aposentada vai ao distrito nos fins de semana, para cuidar do imóvel, e mas não se sente segura para voltar. “Se no começo do avanço das facções o governo tivesse tomado providência, muito poderia ter sido evitado. Não estaria assim.”

*Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados

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