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Cérebros literalmente iluminados: o Nobel e a ciência brasileira

Pesquisadoras brasileiras contribuíram para estudos de optogenética que foram premiados na categoria de Fisiologia e Medicina.

Nexo Jornal7 min read
Cérebros literalmente iluminados: o Nobel e a ciência brasileira

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Caso ilustra a necessidade de defender o financiamento público e o apoio à ciência no país A semana passada foi intensa para nós, cientistas brasileiros, oscilando entre a extrema preocupação e o total encantamento. Por um lado, como comunidade científica, estamos enormemente preocupados. O resultado do primeiro turno traz a ameaça de retorno de lideranças políticas que, no passado, promoveram o desmonte e a perda sem precedentes de recursos e reconhecimento do valor da ciência e das universidades. Por outro, foram anunciados os laureados com o Nobel, uma linda celebração internacional da importância da ciência, dando visibilidade a ideias ilustres que impulsionaram para frente o conhecimento e as capacidades da humanidade. Numa coincidência quase poética, o prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina foi anunciado para uma descoberta que envolve cérebros iluminados – não como descrição figurativa dos laureados (Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel), mas sim como descrição literal da descoberta, que ilumina cérebros para estudar como eles funcionam, através da optogenética. A técnica parece ficção científica, uma ideia certamente “iluminada”: usar luz para ligar e desligar neurônios individuais com precisão, podendo assim estudar o que fazem. O cérebro humano tem cerca de 86 bilhões de neurônios, conectados por algo em torno de 100 trilhões de sinapses. Separar quais circuitos controlam quais comportamentos era algo quase impossível, pois as ferramentas disponíveis antes da optogenética estimulavam neurônios de forma indiscriminada, sem conseguir especificar comportamentos ligados a neurônios específicos. A solução veio de um lugar que ninguém esperava (exceto cientistas, que entendem como o processo científico funciona de maneira nada linear): de algas verdes unicelulares. Certas algas são capazes de se mover em direção à luz, mesmo tendo uma célula única, e portanto sem ter olhos. Fazem isso porque possuem proteínas chamadas canalrodopsinas, que funcionam como portais na membrana celular, que se abrem e deixam entrar íons, alterando o fluxo eletroquímico de suas membranas quando a luz as atinge. Os prêmios Nobel criam uma semana em que se festeja e ilumina a ciência mundialmente, e devemos celebrá-la. Mas comemoremos com a consciência de que a ciência brasileira precisa, agora, de defesa Sabendo que essas proteínas sensíveis à luz alteram potenciais de membranas celulares, pesquisadores pensaram numa maneira inusitada de usá-las. Neurônios também usam impulsos elétricos em suas membranas, com abertura e fechamento de canais fazendo parte das suas respostas a estímulos. Essa atividade dos canais também sinaliza a liberação de neurotransmissores, ou moléculas que transmitem informações entre dois neurônios. Desse modo, ao inserir o gene que leva à produção da proteína das algas verdes em neurônios específicos de animais de laboratório (como vermes e camundongos) e depois iluminar o cérebro com fibras ópticas, os pesquisadores perceberam que poderiam ativar tipos específicos de neurônios com um pulso de luz. A técnica permitiu que se mapeasse com precisão o que o acionamento de cada neurônio promovia em termos de comportamento, possibilitando entender exatamente quais neurônios são responsáveis por cada tipo de resposta comportamental. Isso transformou a neurociência. Nas últimas décadas, a optogenética permitiu identificar os circuitos do medo, do prazer, do sono, da dor e da tomada de decisões. Ajudou a compreender doenças do cérebro como Parkinson, depressão e epilepsia. E está abrindo caminho para tratamentos novos: já existem pacientes com cegueira parcialmente revertida graças a versões dessa proteína aplicadas à retina. Tudo isso, claro, não foi feito apenas pelos três cientistas laureados com Nobel, mas por muitos outros grupos de pessoas que ajudaram a desenvolver e criaram novas aplicações para a técnica. A verdade é que, embora a premiação “ilumine” certos indivíduos com o objetivo de celebrar ciência de altíssima qualidade, o processo científico é sempre colaborativo e envolve o trabalho de toda a comunidade. E é aqui que tenho orgulho de dizer que houve uma participação brasileira muito importante, fruto do trabalho liderado por duas cientistas no meu próprio departamento de bioquímica da USP (Universidade de São Paulo). Em 2014, a então doutoranda Gabriela Mol Avelar, trabalhando sob a orientação da professora Suely Lopes Gomes, descobriu que um fungo aquático encontrado no Brasil, chamado Blastocladiella emersonii, possuía uma proteína rodopsina similar à das algas, capaz de detectar luz, mas que não era um canal capaz de alterar a eletricidade da membrana. Em vez disso, a rodopsina desse fungo era fundida a uma enzima que produz GMP cíclico, uma molécula sinalizadora extremamente importante em neurônios e muitos outros tipos celulares, incluindo nos vasos sanguíneos, onde age modulando a pressão. Nunca antes se havia visto essa combinação, capaz de ativar outro grupo de processos celulares, diferente daqueles da proteína das algas. O achado não passou despercebido. Apenas um ano depois, em 2015, pesquisadores – entre eles Georg Nagel, um dos agraciados com o Nobel – publicaram um artigo mostrando que a proteína do fungo brasileiro podia ser usada como ferramenta optogenética em células e animais de laboratório. As descobertas que levaram ao Nobel de 2026 carregam, portanto, em sua base de sustentação, uma proteína e uma descoberta legitimamente brasileiras. E essa contribuição ilustra muito bem a imprevisibilidade da ciência de qualidade, pois certamente ninguém financiou um projeto sobre rodopsinas em fungos aquáticos brasileiros esperando que ele contribuísse para um Nobel de Fisiologia e Medicina. Fica a lição de sempre de que ciência básica, aquela pesquisa que não tem aplicação imediata óbvia, é a matéria-prima das grandes revoluções. A Dra. Avelar e a Profa. Lopes Gomes, assim como a vasta maioria dos laureados com Nobel, tiveram seus estudos apoiados por investimento público. Essa é a maior fonte de financiamento mundial para ciência fundamental, pois o setor privado dificilmente investirá em pesquisas cujo retorno não é imediatamente visível. O financiamento público, dado o caráter minucioso e desafiador de qualquer pesquisa de fronteira, precisa ter políticas bem preparadas, ser previsível e envolver processos de avaliação que devem ser seletivos, sempre amparados por decisões criteriosas, produto da rigorosa avaliação crítica feita por cientistas independentes, com conhecimento para assegurar sua qualidade. E aqui voltamos à minha preocupação inicial. O Brasil construiu, a muito custo, uma estrutura científica que produz resultados reconhecidos internacionalmente. Não somos uma potência científica, mas não somos invisíveis. O possível retorno do bolsonarismo ao poder coloca tudo isso em risco de maneiras que não são hipotéticas. Na presidência de Jair Bolsonaro, vimos contingenciamentos e obstáculos às agências de fomento, discursos que tratavam a universidade pública como inimiga, ataques à autonomia institucional, desprestígio e desmoralização da ciência e do conhecimento amparado por evidências. E se Flávio Bolsonaro pretende seguir o exemplo da segunda presidência de Donald Trump, a quem sua família tanto admira, os ataques à ciência e a cientistas voltarão mais organizados e devastadores num eventual governo do candidato. Os prêmios Nobel criam uma semana em que se festeja e ilumina a ciência mundialmente, e devemos celebrá-la. Mas comemoremos com a consciência de que a ciência brasileira precisa, agora, de defesa. A melhor homenagem que podemos prestar para a descoberta de uma proteína de fungo brasileiro que entrou na história do Nobel é garantir que o próximo cientista que estuda um fungo obscuro em solo brasileiro tenha financiamento, laboratório, e a serenidade de saber que o país apostará nele por tempo suficiente para que sua descoberta também possa um dia ser iluminada.

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