Mercados emergentes estão mais preparados para uma nova crise da dívida europeia
Os títulos de dívida e as moedas dos mercados emergentes sofreram fortes oscilações durante a crise da dívida da zona do euro, há 15 anos, mas hoje estão mais bem preparados para resistir a uma nova turbulência desse tipo, afirmam analistas.

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Os países em desenvolvimento melhoraram sua situação fiscal nos últimos anos, enquanto os rendimentos relativamente elevados de seus títulos oferecem maior proteção. Os bancos centrais dos mercados emergentes também demonstraram independência e conquistaram a confiança dos investidores ao atravessar episódios anteriores de turbulência, como a pandemia.
A preocupação com um possível contágio dos problemas no mercado de títulos europeus se intensificou nas últimas semanas, à medida que o prêmio exigido pelos investidores para manter títulos franceses em vez de títulos alemães subiu ao nível mais alto desde a crise da dívida regional, em 2011. O aumento dos preços do petróleo, provocado pelos conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia, também contribuiu para ampliar os temores.
“Em comparação com 2011, os mercados emergentes estão hoje em uma posição melhor, com dinâmicas fiscais mais sólidas, contas externas mais robustas e rendimentos nominais elevados, que proporcionam resiliência estrutural”, afirmou Carol Lye, gestora de fundos da Brandywine Global Investment Management, em Cingapura.
Segundo ela, o posicionamento relativamente reduzido dos investidores em moedas de mercados emergentes também diminui o risco de vendas forçadas em um cenário de contágio da crise na zona do euro.
A confiança da Brandywine levou a gestora a ampliar suas posições em moedas latino-americanas, mantendo, ao mesmo tempo, exposição a moedas do Leste Asiático que se beneficiam dos investimentos em inteligência artificial, disse Lye.
A crise da dívida europeia, que se agravou acentuadamente em agosto de 2011, elevou a aversão global ao risco, levando os investidores a buscar ativos mais seguros e deixando títulos e moedas de mercados emergentes vulneráveis a saídas repentinas de recursos.
O prêmio recebido pelos investidores para manter títulos soberanos de países em desenvolvimento denominados em dólares, em vez de títulos do Tesouro americano, chegou a 447 pontos-base em outubro daquele ano. Esse nível só foi superado em 2020, no auge da pandemia de covid-19. Atualmente, o indicador está em cerca de 189 pontos-base.
Neste ano, porém, os mercados emergentes tiveram desempenho superior ao de seus pares desenvolvidos. Enquanto os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de dez anos ultrapassaram 5% no mês passado, atingindo o nível mais alto desde 2002, o rendimento de um índice da Bloomberg de títulos globais de mercados emergentes denominados em moeda local encerrou a sexta-feira em 4,21%, praticamente estável em relação a um mês antes.
“Os mercados emergentes estão bem posicionados”, afirmou Eric Fine, chefe de dívida ativa de mercados emergentes da VanEck, em Nova York. “Em geral, são emissores com fundamentos sólidos e bancos centrais independentes, que já atravessaram crises.”
“De modo geral, os mercados emergentes seriam beneficiados, pois representam alternativas aos ativos de reserva”, disse.
Isso não significa, porém, que não existam focos de risco. Analistas afirmam que alguns países emergentes estão mais vulneráveis do que outros em razão do aumento dos déficits fiscais. “A liquidez pode se deteriorar muito mais rapidamente do que os fundamentos econômicos”, afirmou Lyndon Man, codiretor de crédito global investment grade da Invesco, em Londres. Segundo ele, os mercados podem passar repentinamente a se concentrar exclusivamente nas vulnerabilidades fiscais, deixando de lado os demais fatores.
O Brasil continua sendo um mercado importante a acompanhar. Para os investidores, o desafio é avaliar se a “melhora do sentimento após os acontecimentos políticos recentes será, em última instância, acompanhada por uma implementação fiscal crível”, disse Man.
O déficit fiscal nominal brasileiro subiu para quase 10% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto a dívida pública ultrapassou 80% do PIB, aumentando a apreensão dos investidores. Ainda assim, os ativos brasileiros tiveram valorização na semana passada, depois que Flávio Bolsonaro, considerado mais favorável ao mercado, abriu vantagem sobre Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno da eleição presidencial.
As moedas e os títulos de economias da Europa Central e Oriental também parecem estar potencialmente expostos a riscos, segundo a Macro Hive Ltd., empresa global de pesquisa macroeconômica e análise de investimentos.
“Os países da Europa Central e Oriental que integram a União Europeia seriam os mais vulneráveis entre os mercados emergentes a qualquer turbulência na própria zona do euro, dado o grau de interdependência entre suas economias e suas políticas monetárias”, afirmou Simon Quijano-Evans, estrategista sênior de mercados emergentes da Macro Hive, em Londres.
A Polônia, em particular, vem enfrentando pressões fiscais recentes. Em setembro, a Moody's Ratings rebaixou em um nível a nota de crédito soberano do país, para A3.
Outros participantes do mercado, por sua vez, veem uma eventual liquidação de ativos de mercados emergentes provocada por uma crise da dívida europeia como uma oportunidade para ampliar posições.
A crise da dívida de 2011 “acabou se revelando uma enorme oportunidade de compra”, afirmou Edwin Gutierrez, chefe de dívida soberana de mercados emergentes da Aberdeen Investments, em Londres. Desta vez, segundo ele, a dívida dos mercados emergentes deverá ser menos sensível aos rendimentos dos títulos públicos europeus.
A Aberdeen está se protegendo de uma possível crise europeia ao privilegiar títulos em moeda local de mercados de fronteira, como Nigéria, Egito e Cazaquistão. Esses papéis “não apresentam correlação com os mercados de títulos dos países desenvolvidos em geral”, afirmou.
O que acompanhar:
-Inflação: China, Índia, República Tcheca, Argentina e Polônia divulgarão dados de inflação, que poderão revelar os efeitos da alta dos preços da energia.
PIB da Malásia: o país divulgará o Produto Interno Bruto do terceiro trimestre, indicador que poderá mostrar a continuidade do impulso relacionado à inteligência artificial, já que a Malásia é um polo de centros de dados.
Comércio exterior da China: o país divulgará na quarta-feira os dados comerciais de setembro. Sinais de um superávit comercial robusto poderão reforçar as perspectivas mais otimistas para o yuan.
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